
É natural que um pai ou uma mãe queira proteger o seu filho de tudo: dos perigos físicos, das frustrações, dos melindres sociais. Antes de qualquer coisa, já é um instinto que levamos conosco, e que pode ser muito útil. Porém, ele pode evoluir para uma opção consciente que empequenece em vez de engrandecer.
Existe uma dose boa de exigência. Algumas situações demandam o adágio “aprende-se a nadar nadando”. Não há caminho mais fácil, não há atalho, não há modo de “fazer por ele”. É algo que, ou ele faz, ou ele nunca aprenderá. Pensemos, por exemplo, em andar de bicicleta.
Mas isso não se aplica apenas para habilidades, mas para as cinco dimensões da pessoa humana. Ensinar a comer de tudo, a não reclamar, a cumprimentar, a fazer gentilezas e pequenos favores: tudo isso pode ser fruto de uma saudável exigência.
É importante conhecer os períodos sensitivos e os marcos de desenvolvimento da faixa etária do seu filho ou aluno para poder exigir com prudência e assertividade – ou seja, aquele período ideal para adquirir uma determinada virtude ou habilidade. Assim como seria absurdo exigir que um bebê de dois anos escrevesse, também o seria deixar um menino até os dez anos sem saber amarrar o próprio sapato.
Essa exigência nada tem a ver com uma vigilância tirânica, pois ela brota do amor e da confiança. Não é dizer “você vai ver o que acontecer se não fizer o que estou mandando”, mas “eu confio que você consegue”, “seu esforço vai valer a pena”. Não viver essa exigência, que é suave e forte ao mesmo tempo, equivaleria a um passarinho não aprender a voar porque a mamãe-pássaro quer “poupá-lo”.
No caso dos meninos, em particular, é da sua constituição neuro-psicológica ser desafiado, ser movido pelo espírito de curiosidade, de aventura, de expansão. Se bem direcionado, pode ser a diferença para uma vida realizada e uma vida de medos e inseguranças.
A exigência pressupõe constância e fortaleza, pois, para que se adquira uma virtude ou habilidade, não basta praticá-la uma ou duas vezes, mas sempre. Realmente, é sedimentá-la na própria vida.
Ela também pressupõe um olhar atento para aquele rapaz, enxergar não apenas o que ele é, mas o que pode ser. Ao mesmo tempo, respeitar suas tendências e inclinações naturais, e levá-lo a expandir, a crescer, a superar certos medos, limites ou defeitos. Essa clareza de mente só vem do olhar de quem ama.
O ambiente de confiança que pressupõe a exigência amorosa exclui todo e qualquer perfeccionismo, qualquer “mania”. Não se ama um filho ou aluno pelo que ele faz ou não faz, mas por quem ele é. Ama-se com suas perfeições e seus defeitos, e amar justamente traz o desafio de ajudar a crescer, sem cair no comodismo, ou no erro oposto, que levaria à desconfiança, à perda de dignidade ou crédito. Exigir é dizer: “Justamente porque te amo, não aceito menos do que você pode dar”, mas isso com um sorriso no rosto, sabendo que é um processo (por vezes, lento).
É preciso acreditar na capacidade de recomeçar. Elogios? Sim – mas apenas ao esforço colocado na tarefa realizada. A inteligência e outros dotes e talentos naturais não são mérito. O resultado também não importa, se foram empregados os meios e o esforço para que a tarefa saísse bem. É melhor um filho que tenta ajudar varrendo a casa ou lavando a louça, mesmo sem conseguir um resultado impecável, do que poupá-lo dessa oportunidade de servir aos demais.
Então, como colocar tudo isso em prática? Inserindo responsabilidades claras e progressivas: arrumar a cama, guardar mochila e sapato no lugar certo, assumir algum encargo em casa… Não é preciso focar na quantidade, mas na constância. Melhor algo pequeno todo dia do que algo grandioso “de vez em nunca”.
As consequências naturais das escolhas são grandes aliadas. Se ele esqueceu algo que era de sua responsabilidade, deixe “dar errado”: assim é que se aprende. Uma demora para guardar as coisas, fazendo perder o tempo de alguma brincadeira ou da televisão, acarreta também uma perda natural.
A “dureza” dessa exigência é apenas aparente quando se olha a longo prazo. Deixar de exigir nada mais é do que viver uma mentira: é protelar aquilo que algum dia seu filho ou aluno precisará aprender.
Um menino de 7 anos que aprendeu o valor da sinceridade será um trabalhador honesto. Um menino de 8 anos que sabe administrar suas emoções será um adulto capaz de relacionamentos saudáveis. Um menino de 9 anos que tem espírito de serviço estará pronto para amar quando chegar a hora. Um menino de 10 anos que aprendeu a laboriosidade será um jovem que não desiste no primeiro obstáculo. Do contrário, pode ser que aprender lhe custe muito mais caro: e isso nenhum pai quer.
Professor Luís Henrique Toniolo Serediuk (PEC do 3º Ano Nautilus 2026)